sábado, 26 de janeiro de 2013


Dicotomia e tricotomia, análise histórica e teológica.

 

Conteúdo histórico:

A natureza metafísica do homem no tocante à alma ou espírito, devemo-nos lembrar de que as escrituras têm pouco a dizer sobre sua origem e diz muito pouco de sua natureza, embora tanto o antigo testamento quanto o novo testamento muito tenha a dizer sobre o seu destino.

Uma das questões centrais das Escrituras é a escassez de material, sobre a origem e a natureza da alma. Entretanto, temos que ter muito cuidado quando usamos de certos ”textos de prova”, para prova tanto a natureza da alma ou da natureza metafísica do homem.

No Pentateuco, os cinco livros de Moisés, há notável ausência de menção sobre a simples existência da alma e sua sobrevivência ante a morte física, temas esses que só evidenciam nos livros de salmos e dos profetas. Mas também é verdade que a cultura helênica tinha idéias referentes a essas questões, desde antes da cultura hebraica, porquanto a doutrina da existência e da sobrevivência da alma, foi acrescentada bem mais tarde.

As idéias de crença na alma não faziam parte original da herança judaico-cristã, a idéia dualista sobre o corpo e alma que de modo geral é visto no final do antigo testamento e em todo o novo testamento, foi tomado de empréstimo da filosofia grega, principalmente de Platão, por meio do neo-platonismo. O judaísmo e o cristianismo simplesmente reputaram isso como uma verdade, sem qualquer tentativa de expandir a questão.

Sobre a natureza do homem, ainda que muito tenha sido acrescido acerca do destino do humano, mediante a revelação divina, visto que essa é a tese primordial desses documentos sagrados. Não é de surpreender que a maioria dos teólogos cristãos primitivos se compunha dos que criam na dicotomia, pois muitos deles eram ou filósofos neo-platônicos convertidos ao cristianismo ou estavam sob a influência dessas idéias conforme era o caso de Justino Mártir, Clemente de Alexandria de Orígenes e de Agostinho.

Platão opinava que a alma humana participa do espírito eterno, embora tivesse havido um ponto, dentro do tempo, quando ocorreu a individualização sendo assim formada uma personalidade distinta. Para ele, pois, a alma seria eterna, jamais tendo sido criada em sua substância básica, pois realmente faria parte de uma divindade universa.

            O corpo foi dado à alma depravada como castigo, ainda segundo o ponto de vista de Platão, como um veículo para a alma usar, e no qual o homem se vê aprisionado até que, devido à purificação suficiente, seria libertado para poder escapar para as dimensões puramente espirituais.

            Outros crêem que o corpo é um produto da evolução que se teria originado da criação animal, e que a alma, ao descer, ao passo que o corpo vai ascendendo na escala animal, finalmente encontra um lugar de habitação na matéria, por intermédio do corpo físico. Mas essa residência da alma, neste mundo de matéria grosseira, seria indigna para ela, de onde se concluiria que tal situação lhe foi dada como punição. E a finalidade de toda a conduta ética seria libertar a alma desse universo de matéria ordinária a fim de que pudesse ela buscar ao bem e a Deus, a fim de vir a ser finalmente absorvida em Deus, para que o ego pudesse tornar-se novamente o superego, e assim viesse a possuir novamente a consciência de Deus.

            Aristóteles dividia a alma em seus aspectos animal e racional, ou seja, aquilo que tem haver em comum com o que é animal e o que é divino. E para ele o divino consistiria de pensamento puro a pensar de si mesmo.

Spinoza e Leibniz nos escritos deste último, por exemplo, não se vê nenhuma interação entre o corpo e a alma. Pelo contrário, a personalidade humana seria uma mônada – (unidade) onde todas as supostas características de corpo e espírito teriam sido “preestabelecidas” por Deus, como ocorrências “paralelas”, sem envolvimento algum de causa e efeito. Normalmente, pensa-se que o corpo e a alma, as duas partes distintas do homem, sem importar se têm origem comum ou não, reagem e interagem entre si, em face do estimulo de uma sobre a outra.

 

Tricotomia : Filosoficamente falando, essa posição já contava com o pano de fundo formado pelas idéias de Aristóteles . Os estóicos introduziram o “pneuma” no sistema mundial, que seria a alma ou razão divina (idéia semelhante à do “Logos”), que transcenderia à alma humana. E o destino do homem consistiria da reabsorção no espírito divino. Assim sendo, haveria três elementos, embora não pudessem ser representados todos juntos, como atuais características da natureza humana. Não obstante, o pneuma, por ser a porção mais elevada, ainda que se pareça com a psique, é uma distinção filosófica e teológica natural que encoraja a idéia tricotomista.

 Orígenes aplicava tais pensamentos à sua interpretação acerca das Escrituras, crendo que os mesmos deveriam ser interpretados acerca dos três pontos seguintes:

 1. natureza do “soma” (ou corpo físico), que seria o seu sentido natural.

 2. O sentido “psíquico”, ou seja, o seu sentido simbólico.

 3. E a manifestação pneumática, isto é, aquilo que tange ao sentido místico ou de maior elevação espiritual. Muitos evangélicos modernos têm defendido a posição da tricotomia. A opinião do teólogo  C.I. Scofield. Diz ele: O homem é uma trindade. Que a alma e o espírito humanos não são idênticos se comprova pelos fatos de que são divisíveis (ver Heb. 4:12), e que alma e espírito são claramente distinguidos quando do sepultamento e da ressurreição do corpo, sepultado o corpo natural (no grego, 'soma psuchikon', 'corpo animado') e é ressuscitado corpo espiritual (no grego, 'soma pneumatkon', 'corpo espiritual'), conforme se lê em I Cor.15:44. Portanto, asseverar-se que não há diferença entre alma e espírito é dizer que não há diferença entre o corpo mortal e o corpo ressurreto. No uso das Escrituras também se pode acompanhar diferenças entre alma e espírito. Em suma, essa distinção significa que o espírito faz parte do homem que 'conhece' (ver I Cor. 2:11) a sua mente. A alma é a sede dos afetos, dos desejos e portanto das emoções, da vontade ativa, do próprio eu.

            A palavra traduzida por alma no antigo testamento é (nephesh) e o equivalente exato do termo neo testamentário que significa alma no grego (psique).

           

Da teologia sistemática: Calvino diz que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia.

E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorrem juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que “o espírito retorna então a Deus, que o deu” [Ec12:7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23:46], como também Estevão o seu a Cristo [At 7:59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.

 

A natureza do homem.

 

O homem segundo Gênesis 2:7, compõe-se de duas substâncias. A substância material,o corpo, e a substância imaterial, a alma. A alma da vida ao corpo; e quando alma se retira, o corpo morre.

Mas de acordo com I tessalonicenses 5:23 e hebreus 4:12, compõe-se de três substâncias: alma , corpo e espírito.

Ambas as opiniões são corretas quando bem compreendidas. O espírito e a alma representam os dois lados da substância não física do homem; ou em outras palavras, o espírito e a alma representam os dois lados da natureza espiritual. Embora distintos, o espírito e a alma são inseparáveis, pois permeiam e interpenetram um ao outro. Por estarem tão interligados, as palavras “espírito” e “alma” muitas vezes se confundem (Ec 12:7; Ap 6:9), de maneira que em um trecho descreve-se a substância espiritual do homem como alma (Mt 10:28) e em outra passagem, como espírito (Tg 2:26).

Embora muitas vezes os termos sejam usados alternativamente, tem significados distintos. Por exemplo, “alma” é o homem como o vemos em relação a esta vida atual. Descrevem-se as pessoas falecidas como “almas” quando o escritor se refere a sua vida pregressa (Ap. 6:9,10; 20:4). “Espírito” é a descrição comum daqueles que passaram par a outra vida. (At.7:59; 23:9; Hb 12:23; Lc 23:46; 1Pe.3:19).

O espírito humano.

 

            O espírito dado por Deus de forma individual,  habita toda a carne humana (Nu 16:22; 27:16). O espírito foi formado pelo Criador no interior da natureza do homem e é capaz de renovação e desenvolvimento (Sl 51:10). Esse espírito e centro e a fonte da vida humana; a alma possui e usa essa vida, dando-lhe expressão por meio do corpo. No princípio Deus soprou o espírito de vida no corpo inanimado e o “homem se tornou um ser vivente” (Gn. 2:7). Assim a alma é um espírito encarnado ou um espírito humano que recebe expressão mediante o corpo. A combinação desses dois elementos, espírito e corpo, constitui a “alma” do homem. A alma sobrevive à morte porque o espírito a dota de energia; no entanto, a alma e o espírito são inseparáveis, porque o espírito está entrelaçado no tecido da alma. Eles são fundidos e unidos em uma substância.

 

            A alma do homem.

 

            A alma é aquele princípio inteligente e vivificante que anima o corpo humano, que usa os sentidos físicos como seus agentes na exploração das coisas materiais e os órgãos do corpo para expressar-se e comunicar-se com o mundo exterior. A alma veio existir em resultado do sopro sobrenatural do Espírito de Deus. Podemos descrevê-la como espiritual e vivente, porque opera por meio do corpo. No entanto, não devemos crê que a alma seja parte de Deus, pois a alma peca. É mais correto dizer que é dom e obra de Deus (Zc 12:1).

            A alma distingue a vida humana e a vida dos seres irracionais das coisas inanimadas e também da vida inconsciente, como a vida vegetal.

            Tanto os homens quanto os seres irracionais tem alma (em Gn 1:20, a palavra “vida” é alma, no original).

            A alma do homem o distingue dos seres irracionais. Estes têm alma, mas é uma alma terrena que vive somente enquanto durar o corpo (Ec 3:21). A alma do homem é de qualidade diferente, pois é vivificada pelo espírito humano. Como “nem toda carne é a mesma” (1Co.15:39), assim sucede com a alma; existe alma humana e alma dos seres irracionais.

           

            Alma e o corpo.

 

A relação da alma com o corpo pode ser descrita da seguinte maneira:

  1. A alma é a depositária da vida; ela figura em tudo que pertence ao sustento, ao risco e à perda da vida. È por isso que em muitos casos, a palavra alma é traduzida por vida. (Gn. 9:5; 1Rs.19:3; 2:23; Pv 7:23; Êx. 21:23,30; 30.12; At. 15:26). A vida é o entrosamento do corpo com a alma. Quando a alma e o corpo se separam, o corpo não existe mais; o que resta é apenas um grupo de partículas materiais em rápido estado de decomposição.
  2. A alma permeia e habita todas as partes do corpo e afeta mais ou menos diretamente todos seus membros. Esse fato explica por que a as escrituras atribuem sentimentos ao coração e ao rins (Sl 16:7; 73:21; Jó 16:13; 38:36).
  3. Por meio do corpo a alma recebe suas impressões do mundo exterior. Essas impressões são apreendidas pelos cinco sentidos (visão,audição,paladar,olfato e tato) e transmitidas ao cérebro por intermédio do sistema nervoso. Por meio do cérebro a alma elabora essas impressões pelos processos do intelecto, da razão, da memória e da imaginação. A alma atua sobre essas impressões enviando ordens às várias partes do corpo mediante o cérebro e o sistema nervoso.

 

A alma e o sangue.

 

“Pois a vida (Literalmente alma) da carne está no sangue” (Lv.17:11). As escrituras ensinam que, tanto no homem quanto no ser irracional, o sangue é a fonte e o depositário da vida física.

Em Atos 17:26 e João 1:13, o sangue apresenta-se como a matéria original de onde surge o organismo humano. A alma, ao usar o coração como bomba e o sangue como meio de vida, envia vitalidade e nutrição a todas as partes do corpo.

O lugar que a criatura ocupa na escala da vida determina o valor de seu respectivo sangue. Primeiro vem o sangue do homem, porque o homem tem a imagem de Deus (Gn 9:6). Merece especial apreço, aos olhos de Deus, o sangue dos inocentes e dos Mártires (Gn.4:10; Mt.23:35).

            O mais precioso de todos é o sangue de Cristo (1 Pe.1:19; Hb. 9:12) de valor infinito por estar unido com a Divindade.

 

            Conclusão:

 

Há na bíblia referências que podem tanto afirmar que o homem é composto de: alma, corpo e espírito (tricotomia) quanto: corpo e espírito (dicotomia).

Vejamos: como foi explicado, ambas as definições são corretas dentro de seus contextos. Alma e espírito fazem parte do que chamamos de metafísica (meta- física além da física, ou além do físico). Entendo que a alma e o espírito trabalham juntos, de forma que um se confunde em alguns momentos com a outro. Não que sejam a mesma coisa como já expliquei acima.

Creio que também o sangue é vida, e a vida está no sangue, vida no sentido metafísico (alma). No tocante a parte orgânica do sangue, que pertence, que é igual ao corpo corruptível do homem, acredito que se decompõe como o próprio corpo.

As duas características do homem tanto dicotômica quanto tricotômica me satisfazem, não tendo eu nenhum problema em aceitar uma ou a outra.

Também devemos observar que o homem não se relaciona com Deus e nem com os outros homens de forma partida, ou que sua relação com Deus seja feita em departamentos. Não, o homem se relaciona com Deus de forma integral: (corpo, alma e espírito) ou (espírito e corpo). No relacionamento com Deus, na adoração, o homem está envolvido ou deveria estar como um todo, e esse todo, deve estar entregue totalmente a Deus.

            A também o argumento da triunidade do homem, argumento que também se revela pertinente. Pois se fomos feitos a imagem e semelhança de Deus que é triúno, então o homem por ser formado a semelhança de Deus também o é.

             No que concerne sobre a real natureza metafísica do homem, pode se dizer que o nosso conhecimento nesse campo é ainda muito pequeno, pois nesse campo reina um profundo mistério.

Finalizando quero deixar uma texto de um teólogo antigo, hoje pouco estudado A.B. Langston  ele diz:

“O homem pode ser comparado não como uma casa de três andares, mas a uma de dois. No segundo andar, porém, além de janelas que dão para o mundo, há uma clarabóia, que dá para o céu”.  

A alma é a janela pela qual o homem contempla as coisas desta vida aqui na terra, a clarabóia é o meio pelo qual a mesma pessoa contempla as coisas celestiais; nesta comparação, o andar térreo representa naturalmente o corpo.

 

 

 

Bibliografia:

 

Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia – R.N. Champlin, Ph.D.

Conhecendo as doutrinas da Bíblicas – Myer Pearlman

Esboço de Teologia Sistemática – A.B. Langston

As institutas - Tratado da religião Cristâ – João Calvino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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