Dicotomia e tricotomia,
análise histórica e teológica.
Conteúdo
histórico:
A natureza
metafísica do homem no tocante à alma ou espírito, devemo-nos lembrar de
que as escrituras têm pouco a dizer sobre sua origem e diz muito pouco de sua
natureza, embora tanto o antigo testamento quanto o novo testamento muito tenha
a dizer sobre o seu destino.
Uma das questões
centrais das Escrituras é a escassez de material, sobre a origem e a natureza
da alma. Entretanto, temos que ter muito cuidado quando usamos de certos ”textos
de prova”, para prova tanto a natureza da alma ou da natureza metafísica do
homem.
No
Pentateuco, os cinco livros de Moisés, há notável ausência de menção sobre a
simples existência da alma e sua sobrevivência ante a morte física, temas esses
que só evidenciam nos livros de salmos e dos profetas. Mas também é verdade que
a cultura helênica tinha idéias referentes a essas questões, desde antes da
cultura hebraica, porquanto a doutrina da existência e da sobrevivência da
alma, foi acrescentada bem mais tarde.
As idéias
de crença na alma não faziam parte original da herança judaico-cristã, a idéia dualista sobre o corpo e alma que de modo geral é visto no final do antigo
testamento e em todo o novo testamento, foi tomado de empréstimo da filosofia
grega, principalmente de Platão, por meio do neo-platonismo. O judaísmo e o
cristianismo simplesmente reputaram isso como uma verdade, sem qualquer
tentativa de expandir a questão.
Sobre a
natureza do homem, ainda que muito tenha sido acrescido acerca do destino do
humano, mediante a revelação divina, visto que essa é a tese primordial desses
documentos sagrados. Não é de surpreender que a maioria dos teólogos cristãos
primitivos se compunha dos que criam na dicotomia, pois muitos deles eram ou
filósofos neo-platônicos convertidos ao cristianismo ou estavam sob a influência
dessas idéias conforme era o caso de Justino Mártir, Clemente de Alexandria de
Orígenes e de Agostinho.
Platão
opinava que a alma humana participa do espírito eterno, embora tivesse havido
um ponto, dentro do tempo, quando ocorreu a individualização sendo assim
formada uma personalidade distinta. Para ele, pois, a alma seria eterna, jamais
tendo sido criada em sua substância básica, pois realmente faria parte de uma
divindade universa.
O
corpo foi dado à alma depravada como castigo, ainda segundo o ponto de vista de
Platão, como um veículo para a alma usar, e no qual o homem se vê aprisionado
até que, devido à purificação suficiente, seria libertado para poder escapar
para as dimensões puramente espirituais.
Outros
crêem que o corpo é um produto da evolução que se teria originado da criação
animal, e que a alma, ao descer, ao passo que o corpo vai ascendendo na escala
animal, finalmente encontra um lugar de habitação na matéria, por intermédio do
corpo físico. Mas essa residência da alma, neste mundo de matéria grosseira,
seria indigna para ela, de onde se concluiria que tal situação lhe foi dada
como punição. E a finalidade de toda a conduta ética seria libertar a alma
desse universo de matéria ordinária a fim de que pudesse ela buscar ao bem e a
Deus, a fim de vir a ser finalmente absorvida em Deus, para que o ego pudesse
tornar-se novamente o superego, e assim viesse a possuir novamente a consciência
de Deus.
Aristóteles
dividia a alma em seus aspectos animal e racional, ou seja, aquilo que tem
haver em comum com o que é animal e o que é divino. E para ele o divino
consistiria de pensamento puro a pensar de si mesmo.
Spinoza e
Leibniz nos escritos deste último, por exemplo, não se vê nenhuma interação
entre o corpo e a alma. Pelo contrário, a personalidade humana seria uma mônada
– (unidade) onde todas as supostas características de corpo e espírito teriam
sido “preestabelecidas” por Deus, como ocorrências “paralelas”, sem
envolvimento algum de causa e efeito. Normalmente, pensa-se que o corpo e a
alma, as duas partes distintas do homem, sem importar se têm origem comum ou
não, reagem e interagem entre si, em face do estimulo de uma sobre a outra.
Tricotomia
: Filosoficamente
falando, essa posição já contava com o pano de fundo formado pelas idéias de
Aristóteles . Os estóicos introduziram o “pneuma” no sistema mundial, que seria
a alma ou razão divina (idéia semelhante à do “Logos”), que transcenderia à
alma humana. E o destino do homem consistiria da reabsorção no espírito divino.
Assim sendo, haveria três elementos, embora não pudessem ser representados
todos juntos, como atuais características da natureza humana. Não obstante, o pneuma,
por ser a porção mais elevada, ainda que se pareça com a psique, é
uma distinção filosófica e teológica natural que encoraja a idéia tricotomista.
Orígenes aplicava tais pensamentos à sua
interpretação acerca das Escrituras, crendo que os mesmos deveriam ser
interpretados acerca dos três pontos seguintes:
1. natureza do “soma” (ou corpo físico), que
seria o seu sentido natural.
2. O sentido “psíquico”, ou seja, o seu
sentido simbólico.
3. E a manifestação pneumática, isto é, aquilo que tange ao sentido místico ou de maior
elevação espiritual. Muitos evangélicos modernos têm defendido a posição da
tricotomia. A opinião do teólogo C.I.
Scofield. Diz ele: O homem é uma trindade. Que a alma e o espírito humanos não
são idênticos se comprova pelos fatos de que são divisíveis (ver Heb. 4:12), e
que alma e espírito são claramente distinguidos quando do sepultamento e da
ressurreição do corpo, sepultado o corpo natural (no grego, 'soma psuchikon',
'corpo animado') e é ressuscitado corpo espiritual (no grego, 'soma
pneumatkon', 'corpo espiritual'), conforme se lê em I Cor.15 :44. Portanto,
asseverar-se que não há diferença entre alma e espírito é dizer que não há
diferença entre o corpo mortal e o corpo ressurreto. No uso das Escrituras
também se pode acompanhar diferenças entre alma e espírito. Em suma, essa distinção
significa que o espírito faz parte do homem que 'conhece' (ver I Cor. 2:11) a
sua mente. A alma é a sede dos afetos, dos desejos e portanto das emoções, da
vontade ativa, do próprio eu.
A
palavra traduzida por alma no antigo testamento é (nephesh) e o equivalente
exato do termo neo testamentário que significa alma no grego (psique).
Da teologia sistemática: Calvino diz que o ser humano consta de
alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia.
E pela
palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que
lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito.
Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido
quando ocorrem juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado
separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que
“o espírito retorna então a Deus, que o deu” [Ec12:7]. E Cristo, encomendando o
espírito ao Pai [Lc 23:46], como também Estevão o seu a Cristo [At 7:59],
não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do
cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.
A natureza do homem.
O homem
segundo Gênesis 2:7, compõe-se de duas substâncias. A substância material,o
corpo, e a substância imaterial, a alma. A alma da vida ao corpo; e quando alma
se retira, o corpo morre.
Mas de
acordo com I tessalonicenses 5:23 e hebreus 4:12, compõe-se de três substâncias:
alma , corpo e espírito.
Ambas as
opiniões são corretas quando bem compreendidas. O espírito e a alma representam
os dois lados da substância não física do homem; ou em outras palavras, o
espírito e a alma representam os dois lados da natureza espiritual. Embora
distintos, o espírito e a alma são inseparáveis, pois permeiam e interpenetram
um ao outro. Por estarem tão interligados, as palavras “espírito” e “alma” muitas
vezes se confundem (Ec 12:7; Ap 6:9), de maneira que em um trecho descreve-se a
substância espiritual do homem como alma (Mt 10:28) e em outra passagem, como
espírito (Tg 2:26).
Embora
muitas vezes os termos sejam usados alternativamente, tem significados
distintos. Por exemplo, “alma” é o homem como o vemos em relação a esta vida
atual. Descrevem-se as pessoas falecidas como “almas” quando o escritor se
refere a sua vida pregressa (Ap. 6:9,10; 20:4). “Espírito” é a descrição comum
daqueles que passaram par a outra vida. (At.7:59; 23:9; Hb 12:23; Lc 23:46; 1Pe.3:19).
O espírito humano.
O
espírito dado por Deus de forma individual, habita toda a carne humana (Nu 16:22; 27:16).
O espírito foi formado pelo Criador no interior da natureza do homem e é capaz
de renovação e desenvolvimento (Sl 51:10). Esse espírito e centro e a fonte da
vida humana; a alma possui e usa essa vida, dando-lhe expressão por meio do
corpo. No princípio Deus soprou o espírito de vida no corpo inanimado e o
“homem se tornou um ser vivente” (Gn. 2:7). Assim a alma é um espírito
encarnado ou um espírito humano que recebe expressão mediante o corpo. A
combinação desses dois elementos, espírito e corpo, constitui a “alma” do
homem. A alma sobrevive à morte porque o espírito a dota de energia; no
entanto, a alma e o espírito são inseparáveis, porque o espírito está entrelaçado
no tecido da alma. Eles são fundidos e unidos em uma substância.
A alma do homem.
A
alma é aquele princípio inteligente e vivificante que anima o corpo humano, que
usa os sentidos físicos como seus agentes na exploração das coisas materiais e
os órgãos do corpo para expressar-se e comunicar-se com o mundo exterior. A
alma veio existir em resultado do sopro sobrenatural do Espírito de Deus.
Podemos descrevê-la como espiritual e vivente, porque opera por meio do corpo.
No entanto, não devemos crê que a alma seja parte de Deus, pois a alma peca. É
mais correto dizer que é dom e obra de Deus (Zc 12:1).
A
alma distingue a vida humana e a vida dos seres irracionais das coisas
inanimadas e também da vida inconsciente, como a vida vegetal.
Tanto
os homens quanto os seres irracionais tem alma (em Gn 1:20, a palavra “vida” é
alma, no original).
A
alma do homem o distingue dos seres irracionais. Estes têm alma, mas é uma alma
terrena que vive somente enquanto durar o corpo (Ec 3:21). A alma do homem é de
qualidade diferente, pois é vivificada pelo espírito humano. Como “nem toda
carne é a mesma” (1Co.15:39), assim sucede com a alma; existe alma humana e
alma dos seres irracionais.
Alma e o corpo.
A relação
da alma com o corpo pode ser descrita da seguinte maneira:
- A alma é a depositária da vida; ela figura em tudo
que pertence ao sustento, ao risco e à perda da vida. È por isso que em
muitos casos, a palavra alma é traduzida por vida. (Gn. 9:5; 1Rs.19:3; 2:23;
Pv 7:23; Êx. 21:23,30; 30.12; At. 15:26). A vida é o entrosamento do corpo
com a alma. Quando a alma e o corpo se separam, o corpo não existe mais; o
que resta é apenas um grupo de partículas materiais em rápido estado de
decomposição.
- A alma permeia e habita todas as partes do corpo e
afeta mais ou menos diretamente todos seus membros. Esse fato explica por
que a as escrituras atribuem sentimentos ao coração e ao rins (Sl 16:7; 73:21;
Jó 16:13; 38:36).
- Por meio do corpo a alma recebe suas impressões do
mundo exterior. Essas impressões são apreendidas pelos cinco sentidos (visão,audição,paladar,olfato
e tato) e transmitidas ao cérebro por intermédio do sistema nervoso. Por
meio do cérebro a alma elabora essas impressões pelos processos do
intelecto, da razão, da memória e da imaginação. A alma atua sobre essas
impressões enviando ordens às várias partes do corpo mediante o cérebro e
o sistema nervoso.
A
alma e o sangue.
“Pois
a vida (Literalmente alma) da carne está no sangue” (Lv.17:11). As escrituras
ensinam que, tanto no homem quanto no ser irracional, o sangue é a fonte e o
depositário da vida física.
Em
Atos 17:26 e João 1:13, o sangue apresenta-se como a matéria original de onde
surge o organismo humano. A alma, ao usar o coração como bomba e o sangue como
meio de vida, envia vitalidade e nutrição a todas as partes do corpo.
O
lugar que a criatura ocupa na escala da vida determina o valor de seu
respectivo sangue. Primeiro vem o sangue do homem, porque o homem tem a imagem
de Deus (Gn 9:6). Merece especial apreço, aos olhos de Deus, o sangue dos
inocentes e dos Mártires (Gn.4:10; Mt.23:35).
O mais precioso de todos é o sangue
de Cristo (1 Pe.1:19; Hb. 9:12) de valor infinito por estar unido com a Divindade.
Conclusão:
Há na
bíblia referências que podem tanto afirmar que o homem é composto de: alma,
corpo e espírito (tricotomia) quanto: corpo e espírito (dicotomia).
Vejamos:
como foi explicado, ambas as definições são corretas dentro de seus contextos.
Alma e espírito fazem parte do que chamamos de metafísica (meta- física além da
física, ou além do físico). Entendo que a alma e o espírito trabalham juntos,
de forma que um se confunde em alguns momentos com a outro. Não que sejam a
mesma coisa como já expliquei acima.
Creio que
também o sangue é vida, e a vida está no
sangue, vida no sentido metafísico (alma). No tocante a parte orgânica do
sangue, que pertence, que é igual ao corpo corruptível do homem, acredito que
se decompõe como o próprio corpo.
As duas características
do homem tanto dicotômica quanto tricotômica me satisfazem, não tendo eu nenhum
problema em aceitar uma ou a outra.
Também
devemos observar que o homem não se relaciona com Deus e nem com os outros
homens de forma partida, ou que sua relação com Deus seja feita em departamentos. Não ,
o homem se relaciona com Deus de forma integral: (corpo, alma e espírito) ou
(espírito e corpo). No relacionamento com Deus, na adoração, o homem está
envolvido ou deveria estar como um todo, e esse todo, deve estar entregue
totalmente a Deus.
A
também o argumento da triunidade do homem, argumento que também se revela
pertinente. Pois se fomos feitos a imagem e semelhança de Deus que é triúno,
então o homem por ser formado a semelhança de Deus também o é.
No que concerne sobre a real natureza
metafísica do homem, pode se dizer que o nosso conhecimento nesse campo é ainda
muito pequeno, pois nesse campo reina um profundo mistério.
Finalizando
quero deixar uma texto de um teólogo antigo, hoje pouco estudado A.B. Langston ele diz:
“O homem pode ser comparado não como
uma casa de três andares, mas a uma de dois. No segundo andar, porém, além de
janelas que dão para o mundo, há uma clarabóia, que dá para o céu”.
A alma é a
janela pela qual o homem contempla as coisas desta vida aqui na terra, a
clarabóia é o meio pelo qual a mesma pessoa contempla as coisas celestiais;
nesta comparação, o andar térreo representa naturalmente o corpo.
Bibliografia:
Enciclopédia de bíblia, teologia e
filosofia – R.N. Champlin, Ph.D.
Conhecendo as doutrinas da Bíblicas –
Myer Pearlman
Esboço de Teologia Sistemática – A.B.
Langston
As institutas - Tratado da religião
Cristâ – João Calvino